Cláudia Naoum

Sobre o livroUma palavra basta

Felizmente, o diagnóstico de Papirofobia ‒  aquele medo patológico de papel, que se apodera de alguns escritores quando enfrentados à folha em branco ‒ foi descartado no caso de Cláudia Naoum. A escrita desta publicitária de formação e escritora por escolha, tem a particularidade da concisão, o que inscreve seu estilo na literatura de brevidades.

Cláudia diz pensar assim, de forma sintética, e externa suas ideias com “palavras que tem a dizer”, buscando entre muitas a mais acertada, para não precisar pronunciar mais nada.  Sua inclinação para textos curtos foi detectada já na infância e os desdobramentos deste critério devem ter contribuído na escolha profissional e também do ofício a que se dedica com perspicácia.

Se engana quem pensa que a opção literária da escritora é apenas um reflexo de tempos de tecnologias permanentemente renovadas, em que as redes sociais se multiplicam. Neste contexto, a literatura das pequenas narrativas, cujo tamanho reduzido parece ideal para as comunicações dinâmicas e constantes, sugeriria apenas uma consequência. Seguindo esta lógica, ignoraríamos os haicais, que existem desde o século XV e esqueceríamos do subjacente, nos pequenos capítulos de Machado de Assis. Ou de escritos precisos deixados por autores como Kafka e Hemingway, que também buscaram experiências onde o certeiro era o propósito.

Para alguns pensadores da contemporaneidade, mais que um pequeno texto narrativo, as brevidades literárias seriam a demonstração de que as totalidades não servem mais à humanidade. Servem sim as individualidades, as pessoalidades, as pequenas verdades que nos constituem. Esta escolha literária, então, se mostra generosa, ao buscar a intensa participação do leitor na composição final de seu sentido. Sugerir é o próprio mecanismo deste estilo. Propor imagens e movimentos e reclamar a participação ativa do imaginário de quem lê.

Situada neste espaço de precisão encontramos a discreta Cláudia Naoum, que buscou fundamentos para sua expressão, naturalmente breve, e encontrou as experiências oferecidas por Marcelino Freire, em forma de oficina literária, e as escrituras de tantos outros autores, que confessa: “me inspiram a cada ponto. Mesmo quando este falta”. Portanto: que não lhe faltem ou sobrem pontos, que apenas os encontre.

Questionava: uma palavra basta?
Ouviu mestres, escolheu ideias.
Acometida de inquietude, encontrou o medo,
buscou a cura,
e viveu de verbo. Ponto.

Sobre a autora: Cláudia Naoum é nascida no interior paulista, mudou-se para a capital quando escolheu cursar Comunicação Social na ESPM – Escola de Propaganda e Marketing. Desde então mora e trabalha nesta cidade, conhecida como o principal centro financeiro, corporativo e mercantil do continente sul-americano. Mas Cláudia deve preferir chamá-la simplesmente de Sampa, devido a sua predileção por uma escrita essencial.

Sua opção pelos minicontos ‒ também conhecidos por micro ou nanocontos ‒ a inscreve nos autores que seguem este estilo, cujas características ainda não foram reconhecidas como um gênero específico dentro da teoria literária e estimulam seus escritores ao uso rigoroso e escasso de palavras, com a intenção de sugerir mais do que relatar ou descrever. As elipses narrativas desta escrita convidam os leitores a participar intensamente na geração de sentido de cada história.  “Crio narrativas breves sobre diferentes personagens”, que no caso do livro a ser lançado pela Editora Kazuá, gira em torno das fobias e medos do ser humano.

Trabalha com planejamento e redação em agências de comunicação, o que já estabelece uma relação com a escrita, mas procurou seu espaço também em outros campos das palvras: “criei alguns roteiros infantis para uma série de TV em Portugal e também roteiro para curtas de amigos. Participei de algumas coletâneas de mini e microcontos”, relata. Foi em oficinas de criação literária com os escritores Marcelino Freire, Nelson de Oliveira e João Silvério Trevisan, expoentes no estilo escolhido pela autora, que nasceram inspirações para as narrativas, “e foi em uma oficina do Marcelino, que nasceram as fobias” que conta em seu livro.

Diz que “quando pequena, tinha o hábito escrever cartas para a família, colegas de classe e amigos imaginários. Também adorava ouvir as histórias dos mais velhos e recontar com doses de exagero”, hábito que agora pode colocar nas páginas de uma publicação, contando as palavras, claro!