Elaine Milmann

Sobre a autora: A autora é educadora especial, psicopedagoga, mestre e doutora em Educação pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul – UFRGS. Dentro das possibilidades de pesquisa na área da educação, escolheu o ramo da educação especial, que se ocupa do atendimento específico a sujeitos em uma posição singular na linguagem. A publicação é resultado de sua preocupação com as diversas formas de existir, da complexidade dos seres e das capacidades insuspeitadas, promovendo o cuidado com a diferença e considerando as múltiplas possibilidades de aprendizagem.

 

Sobre a obra: “O livro ‘Poética do Letramento’ foi dividido em três partes correspondentes a três eixos de minha investigação sobre a aquisição da escrita em crianças com problemas orgânicos e/ou psíquicos: escrita, corpo e linguagem. Cada parte é introduzida com o ideograma correspondente: wen -escrita, shen – corpo, yu – linguagem. Junto a cada um deles, acompanha a explicação de sua composição. Cada ideograma é composto de traços ‒ significantes gráficos ‒ remetendo aos fonemas através de uma rede que liga um significante a outros, tanto fônicos como escritos. Através dessa noção, Derrida amplia a noção de escrita, com sua écriture.

Também o ideograma foi estudado por Jacques Lacan em sua discussão sobre a constituição do psiquismo, valendo-se de metáforas escriturais, como Freud já fizera. Essas metáforas, segundo a pesquisadora Cláudia Rego, sofrem um processo de inversão, passando a valer também para uma teoria sobre a escrita. Sigo essa linha de pensamento em minha pesquisa. Finalmente, os ideogramas se destacaram nos estudos sobre a poesia concreta, estabelecendo pontes entre a escrita chinesa e a poesia concreta. Parece mesmo haver uma chave nas escritas ideográficas para compreender a complexidade da aquisição da escrita e da constituição do psiquismo. Essa chave, entre outras coisas, abre uma passagem para o trânsito entre a imagem e a escrita na constituição do sujeito e na aquisição da escrita A travessia pelas diferentes formas de registro gráfico é necessária para o sujeito poder experienciar o saber fazer com a linguagem escrita, fundamental para o letramento.

Na poesia concreta, os jogos de traços e letras no espaçamento é um cenário de escrita que nos lança na dança das letras com os sentidos tecidos. Isso vale para o trabalho de letramento de todos nós, pois este não se esgota nos anos iniciais da escola: segue por toda vida.”

(A autora)

“Um livro que, corajosamente, testemunha de um trabalho sobre o qual não cabem os predicados de clínico ou escolar. Pelo menos não em uma posição de alternância – ou um ou outro. Assentadas tanto no chão da clínica quanto da escola, suas letras compartilham os rastros deixados por anos de experiência de trabalho junto a crianças e jovens que apresentam uma posição singular na linguagem; posição essa que atualiza impasses na aprendizagem, notadamente, dificuldades na travessia rumo ao letramento.

Um livro que, generosamente, oferece um testamento àqueles que têm o privilégio de percorrer suas páginas. Ao testemunhar da criação diuturna de formas de acolhimento e intervenção junto a sujeitos que não se alfabetizam conforme o esperado por nossas instituições, Elaine Milmann equaciona elementos que servem de princípios para orientar uma prática nesse terreno. Dessa forma, deixa um testamento àqueles que por essas terras se aventuram.

Testemunho. Testamento. Ambos já seriam suficientemente instigadores para iniciar a leitura desse livro que tens em mãos, leitor. Mas não se surpreenda se no caminho fores catapultado para o que não esperaria encontrar em um livro científico: a poesia. A poesia é a lâmina que permite avançar abrindo caminho na floresta densa das impossibilidades de acessar o mundo das letras. Aprenderás que ela também pode te acompanhar, se precisares empreender semelhante travessia.”

(Simone Moschen).