Gustavo Matte

Sobre o autor:

Gustavo Matte nasceu em Chapecó em 1986 e mudou-se para Porto Alegre/RS para fazer curso superior em Letras. Desde adolescente esteve envolvido com música, teatro, quadrinhos, cinema e literatura, tendo publicado e distribuído, em Porto Alegre, uma série de fanzines intitulada “Polpa”. É autor do romance “Demo via, let’s go!” e do ensaio “Menos tropical e mais tropicalista: subtropicalista!”, ambos publicados pela Editora Kazuá, em 2017.

Sobre as obras:

“Demo via, let’s go!” – 

“Demo via, let’s go!” é um conceito que abarca a intensa transformação geracional ocorrida no Oeste de Santa Catarina nos 1990. Uma sociedade tradicional de agricultores ítalo-germânicos precisou, repentinamente, conviver com uma crescente juventude urbana, antenada nos fluxos globais de massas, buscando o cosmopolitismo e a contracultura com a atenção voltada para a MTV e para as novas formas comportamentais que vinham sendo discutidas, nos grandes centros urbanos, pelo menos desde os anos 1960. R. Mutt, protagonista deste romance, é membro de tal juventude. Desiludido com a vida que foi encontrar em uma capital (Porto Alegre), inicia a rememoração problemática de sua vida e do lugar em que cresceu: a cidade de Chapecó. Perseguido pela figura fantasmagórica de um tal Chicó, sua narrativa é constantemente atravessada pelo delírio, ou é entrecortada por certas reflexões, ora lúcidas, outras obscuras. Além disso, o passado geralmente retorna pelo viés da iniciação e (falta de) amadurecimento sexual, atribuindo simbologia problemática à genitália masculina. A segunda parte (lado B) mergulha em uma narrativa pop/fantástica ao centro cultural do país (Rio de Janeiro e São Paulo). Com boa dose de influência tropicalista, os encontros com P. Álvares Cabral, Zé CArioca, R. Crusué, a Cabeça Dinossauro e o Homem-Aranha integram uma busca por refletir sobre o Brasil e sobre o sentimento sulista ao estar no Brasil. Afinal, o que pode ele (o Brasil), representar para uma personagem que, apesar de brasileira, nunca conviveu com portugueses, negros ou índios? Iconoclasta, underground e escatológico, R. Mutt, convertido em uma espécie de “Macunaíma Colono”, sobrevive ao apocalipse, naufraga no Rio de Janeiro, perambula por São Paulo, e descobre um país irreal, encerrando sua jornada com a fatal sensação de que sua própria pátria é quem desorganiza a sua mais íntima identidade.

“Menos tropical e mais tropicalista: subtropicalista” – 

Nem brasileiro, nem estrangeiro. Nem italiano, nem alemão. Nem gaúcho ou catarina. O autor desde ensaio se aproxima e se afasta, mergulha e emerge implode e explode as imagens de sua terra natal (a cidade de Chapecó) em busca de algum denominador identitário, um porto seguro para que possa, finalmente, reivindicar: “Também quero ser brasileiro!”. Mas a questão é mais espinhosa do que pode parecer a quem não conhece as especificidades da formação cultural do Oeste de Santa Catarina, região de colonização recente e acelerada, italiana e alemã, onde os grandes “temas históricos” (como a escravidão de africanos, a colonização portuguesa e o domínio territorial português) não existiram. É um lugar alheio à ambiência sociocultural do Brasil, extraviado do tradição nacional; ao mesmo tempo, too much imberbe para ter uma tradição própria bem definida, perceptível, continua. Surgem, então, questões interessantes: como falar a partir de um lugar sem tradição? É um lugar sem passado? Sem memória? E como pertencer a esse lugar? Ou melhor: como pertencer literalmente a esse lugar? A busca pela resposta está atrelada à execução de um projeto literário intitulado “Demo via, let’s go!”, cujo processo de criação é desdobrado analiticamente neste ensaio, problematizando noções cultura, regionalidade e nacionalidade, para encontrar a síntese num conceito novo e retardatário: Subtropicália – tentativa de formular a brasilidade através de um ponto de vista bastante incomum: O Sul ítalo-alemão, suburbano e jovem – para diluir a presença hegemônica luso-tropical na evidência de outras formas de sensibilidade e experiência.