Kleber Felix

Sobre o livro: É bacana beber com o Felini, por Bruno Bandido

Já faz tempo que eu bebo com o Felini. Ele é um personagem recorrente na bibliografia do Kleber. E tá em uma nova cidade agora, com sua velha máquina de escrever e um fantasma do qual tenta se livrar. Ele ainda escreve. É isso que o Felini é, um escritor. É tudo o que ele tem, é o que o diferencia de um rato, de um mendigo, é o que o torna um filho da puta orgulhoso, circulando entre universitários cults, hippies infinitos e habitantes de pensão. Ele não tem medo das encrencas e chatices que a simples frase “eu sou um escritor” pode causar. É aí que entra o humor e a diversão na literatura de Kleber Felix. Também temos a tristeza, a angústia e as fossas. É claro, isso vem da vida. Por isso é tão bacana beber com o Felini. Ele é um sujeito engraçado e sensível, como eu imagino que o Kleber também deva ser. Só que isso não vem ao caso. O que interessa é que ele tá ainda mais afiado neste novo livro, com um ritmo que mistura sua prosa seca com imagens poéticas e surrealistas, uma gama de personagens elaborados e interessantes (cada um renderia um livro próprio) e grandes sacadas na hora de falar de sexo, de relacionamentos e de uma nova geração que cresceu com Tarantino sendo seu Godard e recebeu sua própria Odisseia (Breaking Bad) de um dos produtores de Arquivo X. Óbvio que algo zoado sairia daí. Kleber saca isso como poucos e, num dos capítulos mais bacanas do livro, revisita Jules Winnfield e Vincent Vega, mas capina tanto sua própria cultura que a violência deixa de ser estilizada para chegar em Travis Bickle.

Mas vamos falar sobre sexo. Ele é um elemento chave desse livro. Felini anseia por bucetas universitárias, bucetas prostitutas, bucetas psicólogas, bucetas amadas, bucetas violentas, bucetas acolhedoras, todo tipo de buceta, tipo a apresentação do bar em Um Drink no Inferno, tão ligados? E enquanto Felini passa por essas trepadas, Kleber apresenta seu show de literatura. Ele não quer nos dar erotismo. Ele quer dissertar filosoficamente sobre o sexo como uma espécie de Henry Miller, ele quer nos dar imagens tacanhas e engraçadas em frases que mais parecem haikais de motel, “Boca, buceta e pau, um meia nove brutal”, e ele usa o cinema, “Minha Uma Thurman maconheira, minha Ornella Mutti debruçada na janela dum túmulo monumental. Em fade in, meto devagar pra ser eterno e o que é bom dura pouco… slowmotion… blecaute”. E não satisfeito, ainda tem a manha de chamar Roger Donaldson pra dirigir a cena. Acontece que sempre que falamos de Felini, entramos em seu poço de sensibilidade – o fantasma o segue pelas trepadas, e elas não deixam de ser uma espécie de fuga e de refúgio. Prestem atenção neste trecho, pois nele aprendemos que uma buceta, para Felini, pode ser sua própria Pasárgada: “Ali dentro sim, é um lugar bom pra se viver, não no mundo. Ali dentro dela não existe miséria nem doença, ninguém morre. Ali dentro dela tem um jardim que tá sempre florido e as flores são bacanas e a lua é linda, os pássaros cantam tão bem e até anjos e deuses que se despregam de cruzes bem podem existir. Ali dentro dela eu era feliz”.

O que acontece é que toda fuga é furada se você não furar sua cabeça. É lá que todos os fantasmas estão. Felini pode ensinar isso sendo ghost-writer de uma puta, voltando pra casa ou se perdendo de todos, criando sua própria cidade fantasma, sua galeria de fracassos que enlouqueceram. Ele já nos ensina isso no próprio título do livro. Mas e daí? Ele é um escritor ou um rato? Por isso é tão bacana beber com o Felini.