Luciano Garcez

Sobre o livro: A Mais Atada À Tua Palavra – O Caderno de Mariana L, Em Mãos, Seguido de Avulsos do Poeta B

“Não seriam Mariana L. e o Poeta B “aterradoramente” um só poeta? O feminino, o masculino e a Outra Voz? A resposta para o mistério dessa trindade humana está na própria Poesia. Quem nela esteja disposto a mergulhar, saberá.” (Dalila Teles Vera, poeta)

Em seu quarto trabalho literário, o poeta-músico Luciano Garcez (ABC, 1972) mostra-nos um ousado exercício psicológico-literário de desprender-se de seus Eus, na forma dos heterônimos que lhe pertencem. “A Mais Atada À Tua Palavra – O Caderno de Mariana L, Em Mãos, Seguido de Avulsos do Poeta B”, Editora Kazuá (2014), é um livro de poesia híbrido e composto, onde estão incluídos outros dois livros de “autores” diferentes, Mariana  L. e o Poeta B, além de um posfácio em forma de crônica (com uma fábula-conto em seu meio) da autoria do próprio Garcez – finalizando tudo com um sintomático estudo sobre a heteronímia, assinado por Mariana L.

Poeta e músico que trabalha na borda e transvaloração de diversas linguagens artísticas, e elogiado por nomes como Haroldo de Campos, Eduardo Navarro, Walter Franco, Augusto de Campos, Florivaldo Menezes e José Miguel Wisnik, entre outros, Garcez cria, para além do tradicional livro de poemas com uma sua “outra voz”, a carnalidade dela própria, isto é, Mariana L. e o Poeta B. passam a existir no real e no hiper-real, encarnados nas figuras de “atrizes-médiuns”, que se fazem presentes, falantes e atuadoras em redes sociais, eventos – em miríades de próprias opiniões, personalidades detectáveis e sons, mais que apenas imaginários ou imagéticos. Armando Lobo nota, muito acuradamente, aliás, que Luciano Garcez inventa o ‘distanciamento apaixonado’ e faz com a poesia aquilo que Gilberto Freyre fez sociologicamente em ‘Memórias de um Cavalcanti’: uma contemplação fetichista da ‘vida alheia’. Entre aspas sim, pois esta vida revelada por Garcez também é dele e nossa; e o olhar pelo buraco da fechadura do Empíreo talvez seja uma obrigação para o desenergizado e tenso homem contemporâneo.” O mesmo homem de hoje que, no dizer de Octavio Paz, não sabe o que dizer – tampouco “como dizer” – (d)o amor (seu contemporâneo) coisificado e roto de ideologias que está:

“Queríamo-nos música

alguma qualquer

mas confundimos aflição com febres intestinais

e quiçá seja tudo coisa-uma

– mas para sua balança de vidro,

nunca será.”

(fragmento de poema da obra)

Um livro de densidade e diálogos incessantes, onde aparecem, na forma de citação, paráfrases e saudades grafadas, as vozes de Handel, Luiz Melodia, Hölderlin, a Musa de Homero, a reza popular e tantos outros seres da linguagem – oferecendo-nos, enfim, uma meta e setanarrativa que, de tão múltiplos dizeres, no dizer de Julio Mendonça, é feita de “(…) fraturas e hibridismos, de entrega apaixonada e ceticismo, capaz de alternar versos longos e outros tantos curtos e concisos. Garcez espera dos leitores que paguem a ousadia da sua alteridade com a forma de leitura mais aguda: a que lê por diferentes vieses.”

Sobre o autor: Nascido em 1972 no ABC paulista, Luciano Garcez é poeta, dramaturgo, compositor, cancionista e maestro. É Mestre em Composição e Poesia pela UNESP e UNIRIO. Seu trabalho de música erudita e popular está distribuído em CDs pelo Brasil e Europa, gravada por diversos intérpretes. Lançou seus livros de Poesia “Salutz a Uma Dama Moura” em 2010, “As Cidades Cediças” em 2012 e sua sátira-ópera em e-book “L´Ascension ou o Cristal do Milagre Chinês”, em 2014.  Seu CD autoral de canções “You Are The Trickster” foi lançado, também, em 2012. Sua obra, o autor a define como sendo “Mitopoética” e “Pluridimensional”, onde “Tempos, estilos, épocas e gêneros se misturam com a mesma elegância abstrata dos temas tão difusos que se organizam em uma banca de jornal, ou nas páginas, vaginas-luz e links da Internet”.