Carolina Turboli: ‘Ser mulher no meio literário é tão desconfortável quanto ser mulher e ir ao mecânico’

07/08/2017

 

“Um romance gestado em 30 dias – parto normal – após decepção amorosa real. Foram precisos 1185 dias e 20 exatas reescrituras pra que ele lhes pudesse fulgurar conforme brilha agora, entre nudes do I-ching e a benção dos arquétipos – ou arcanos maiores – do Tarot de Marselha.” É assim que a escritora Carolina Turboli, de apenas 26 anos, apresenta seu primeiro romance “Para que eu não ande vagueando atrás de Mel”, publicado pela Editora Kazuá e lançado em junho no Rio de Janeiro.

O processo que levou à gestação de sua obra é essencial para Carolina, que ressalta que o livro foi escrito “por necessidade”. Após o fim de um relacionamento, a escritora enfrentou as próprias angústias e inseguranças e produziu “Para que eu não ande vagueando atrás de Mel” nos 30 dias que havia conseguido de licença médica para lidar com as dores do término. Cuidadosa com sua arte, Carolina ainda reescreveu e revisitou a obra por quase 3 anos, até publicá-la em junho de 2017. “O livro foi escrito em 30 dias no ano de 2014, mas ficou 1 ano de molho e foi sendo revisado durante 2 anos, com a leitura e a opinião de alguns amigos queridos.”

O resultado desse processo é um livro de estreia que foi revisado e comentado por importantes intelectuais do Rio e que conta com um projeto gráfico bastante experimental. A capa, quase surrealista, imita a escadaria Selarón atravessada por um mapa online e um São Sebastião mulher. O projeto gráfico foi uma gravidez cuidadosa entre a autora e a Editora Kazuá.

O livro já está disponível para compra na loja virtual da Kazuá!

Carolina e amigos no lançamento do livro. (Foto: Alexandre Antunes)

A paixão pela escrita não é a única forma de expressão artística de Carolina. A carioca também é compositora, música e possui trabalhos no teatro e na dança. No livro, ela busca misturar as experiências adquiridas nessas diferentes vertentes artísticas. “No (meu) processo de criação, as referências mais essenciais parecem brotar do Inconsciente, não de um plano racional. Assim percebi que a Dança estava presente na minha maneira de gingar com as palavras, e que a Música atravessava o livro como um fio de navalha, já que falava de duas pessoas que se amaram através dela. Assim é que essas artes se cruzam, livres pelo manancial do Inconsciente, no plano bidimensional da palavra”, explica a autora.

Nos seus primeiros passos de uma promissora trajetória na literatura, Carolina Turboli nos mostra que possui a capacidade de grandes artistas, de transformar os sentimentos mais profundos que acometem o ser humano em palavras, gingas e sons. Consciente do tortuoso caminho de uma literatura que parte do fundo da alma, ela cita um grande poeta chileno para mostrar que não tem receio de até onde sua escrita pode chegar: “À maneira de Nicanor Parra, não me responsabilizo se a ficção, como nos contos de Cortázar, tanto se misturarem à vida-montanha-russa que acabem por lhes deitar sangue do nariz. ”

CONFIRA A ENTREVISTA COMPLETA:

Editora Kazuá: Quando você entrou em contato com a literatura? E desde quando começou a escrever?

Carolina Turboli: “Leio” desde antes de ler e escrevi meu primeiro livro aos 7 anos. Se chamava “O camarãozinho mágico”. Acho que não precisaria dizer mais nada. Pedi pros meus pais pra registrá-lo na Biblioteca Nacional. Me rendeu uma matéria no jornal do colégio com a manchete “Garota-prodígio”, com foto tirada na biblioteca (do colégio) e umas meninas da minha turma (que eu não gostava) em pé atrás de mim.

K: Como é o seu processo de criação? Quanto tempo o livro levou para ser finalizado?

CT: Não tenho um processo de criação único. Eu escrevo prosa e poesia, e os dois demandam caminhos mentais bem diferentes. A música também; as canções simplesmente aparecem, a partir de situações do dia-a-dia. “Para que eu não ande vagueando atrás de Mel” tem uma história especial porque foi escrito por necessidade. Eu havia terminado um relacionamento, estava com Síndrome do Pânico, tomava remédios, mas ainda assim fui para o retiro Vipassana de 10 dias de silêncio e meditação, dois dias depois do término. Quando voltei do retiro, meu ex-companheiro cortou brutalmente laços comigo e com minha família. Eu estava me sentindo ótima, energizada, mas tive um surto de mania que ele interpretou como traição (no retiro!).

O resultado foram 30 dias de licença médica que viraram 30 dias de escrita, aproximadamente de 4 a 6 horas por dia. Depois desse período e da aprovação do original pela Kazuá, eu reescrevi o livro aproximadamente 20 vezes. Eu tirava um final de semana e ia lendo com calma, com olhar de leitora que pudesse modificar as partes menos interessantes. A ideia era tirar esse vestígio autobiográfico e cortar as partes inúteis, tornando mais ricas as outras. Assim, o livro foi escrito em 30 dias no ano de 2014, mas ficou 1 ano de molho e foi sendo revisado durante 2 anos, com a leitura e a opinião de alguns amigos queridos. Queria ter certeza de que só tinha ficado a essência: aquilo que me fez sentar a bunda pra escrevê-lo durante aqueles 30 dias.

“’Para que eu não ande vagueando atrás de Mel’ tem uma história especial porque foi escrito por necessidade.

K: Você também possui um trabalho autoral na música. Conte mais pra gente sobre sua trajetória musical. Você consegue dizer qual paixão veio antes, a música ou a literatura?

CT: Por ventura, a literatura veio primeiro e casou bem com minha sede de mundo. Leio pelo menos 40 livros por ano, e gostaria de ler muito mais. É uma paixão que não acaba. Escrever também era bem útil na época do colégio e foi em sala de aula, não prestando atenção nas matérias (menos na aula de Literatura, claro), é que comecei a escrever de verdade.

O primeiro violão veio com 12 anos, e eu só aprendi a tocar porque queria compor. Fiz aulas particulares de violão, cursei 2 anos a Escola Portátil de Música, fiz o curso básico de Canto da Escola Villa-Lobos, cursei 2 anos da escola de teatro “O Tablado: tudo pelo palco”. Compor mesmo não me exige nenhum esforço, é puro prazer. Estudei pra ter alguma noção do que eu estava fazendo, pra cantar minimamente bem e ter uma personagem de palco – a de “escritora” não ajuda muito. Costumo dizer que a música me faz feliz, e a Literatura faço por necessidade. Se para ter excelência em alguma coisa é preciso de 10000 horas de prática, ainda demorarei um pouco mais no violão. Na Literatura, tenho bem mais que isso. Logo, sou uma escritora-compositora.

“Costumo dizer que a música me faz feliz, e a Literatura faço por necessidade.”

K: No texto de contracapa do seu livro, a professora Cinda Gonda cita sua “poética interartística” para composição da narrativa. Como você busca passar outras expressões (dança, música, teatro) para dentro da literatura?

CT: Como boa geminiana, “estou” nessa vida escritora, compositora, dançarina e atriz. Usando um termo de Foucault, tenho uma “estética da existência”: transformar tudo em arte. Meu objetivo de vida é transmutar o máximo que eu conseguir da minha experiência pra arte. Isso significa (quase) uma perversão às vezes: sou capaz de parar QUALQUER coisa que eu esteja fazendo pra anotar uma boa ideia ou um bom “quadro”/ “cena”, da mesma maneira que sou capaz de buscar experiências só porque eu sei que elas me darão material de criação.

No (meu) processo de criação, as referências mais essenciais parecem brotar do Inconsciente, não de um plano racional. Assim percebi que a Dança estava presente na minha maneira de gingar com as palavras, e que a Música atravessava o livro como um fio de navalha, já que falava de duas pessoas que se amaram através dela. A Literatura me parece mais verossímil do que a vida, e essa é minha concepção de Teatro: imitar a “Literatura de dentro” no palco. Assim é que essas artes se cruzam, livres pelo manancial do Inconsciente, no plano bidimensional da palavra.

“A Literatura me parece mais verossímil do que a vida, e essa é minha concepção de Teatro: imitar a ‘Literatura de dentro’ no palco.”

K: O livro é ilustrado com imagens das cartas do Tarot de Marselha e artes gráficas baseadas no I-Ching. Como chegou a essas influências dentro do seu trabalho? E como elas conversam com a história do livro?

CT: Uma das coisas mais legais de ter um surto de mania é a clara percepção de que todas as coisas são interrelacionadas, fato que, talvez por sanidade, deixemos escapar no cotidiano. O Tarot e o I-ching, bem como a Astrologia Ocidental, são ferramentas de autoconhecimento fundamentais no meu dia-a-dia. Eles representam arquétipos milenares da experiência humana  – o Tarot com seus 22 arcanos maiores e o I-ching com seus 64 hexagramas – que orientam minha forma de interpretar os acontecimentos. Por isso, escolhi desenhar o livro com capítulos curtos tais quais cenas arquetípicas. A cada uma dessas cenas, batizei com um arcano maior ou com um hexagrama de I-ching.

O Evandro, editor, deu a excelente ideia de usar as imagens do Tarot e do I-ching para dar mais visibilidade (literalmente) à potência desses oráculos no livro. Eu adorei. É parte intrínseca da via-crúcis que os personagens vivenciam na história.

K: Seu trabalho valoriza bastante os traços do feminino no processo de criação. Recentemente, participou ainda do encontro “Novas Escritas do Corpo Feminino”, na UFRJ. Como você poderia descrever sua vivência no mundo literário como mulher?

CT: Ser mulher no meio literário é tão desconfortável quanto ser mulher e ir ao mecânico, por exemplo. Pra mim, é a mesma coisa. As pessoas ficam te olhando e avaliando suas capacidades cognitivas. Querem te passar a perna ou te colocam no grupo “café-com-leite”. Por isso, fazer parte de um grupo chamado “Escritas do Corpo Feminino” é um ato de resistência que me faz estar sempre em contato com textos literários e acadêmicos de outras mulheres. O evento foi tão emocionante que havia mulheres chorando ao recordar de sua pulsão pela escrita, deixada de lado por insegurança ou pelas outras tarefas impostas socialmente pelo fato de serem mulheres! Da mesma forma, participar de um coletivo de poetas chamado “Disk Musa” já me salvou de escapar da minha própria trajetória: esse é o maior perigo que encontro em ser mulher.

Já minha criança interior nunca se importou: escrevo desde sempre e não tenho dúvidas nem das minhas habilidades nem do meu desejo de escrever. Porém, com o tempo, comecei a sentir o peso social de ter feito essa escolha e de como ela é desrespeitada sócio-culturalmente. Minha necessidade de escrita afeta muito a minha vida pessoal, porque as pessoas não entendem e querem me colocar em outros “papeis” sociais. Além disso, a pouca entrada no mercado mexe com a minha segurança em relação aos meus planos futuros.

De qualquer maneira, a minha resolução é escrever e estar perto de outras mulheres, lembrando-as de fazer o mesmo. Graças às Deusas, o momento é (mais) apropriado pra isso.