Liliane Mendonça traduz “François”, de George Sand: “Infelizmente o preconceito ainda é um tema muito atual”

07/07/2017

Um romance escrito por uma mulher que teve de alterar seu nome e se passar por um homem para ser publicada. A história de um jovem abandonado pelos pais que, após ser adotado, tem de conviver com o preconceito pela incerteza de sua origem. Questões que poderiam ser tratadas nos dias de hoje, mas nos remetem à França do século XIX, em que Aurore Dupin publicou, como George Sand, o livro “François – le champi”.

Responsável por levantar debates tão atuais, este clássico da literatura ganha agora a tradução de Liliane Mendonça que será publicada pela Editora Kazuá, mais de 150 anos depois de ter sido escrita. Com o título “François – O menino abandonado”, Liliane coloca nas ruas um projeto que idealizou desde os tempos de faculdade, quando conheceu a obra. “Quando terminei de ler eu já sabia que um dia iria traduzi-lo, ele precisa ser lido. A autora me chegou como uma mulher genial, politicamente ativa, que defendia publicamente tudo aquilo em que acreditava, como o direito das mulheres dirigirem a própria vida, o direito ao divórcio”, conta em entrevista para a Kazuá.

Formada em Letras pela Universidade Federal do Paraná (UFPR), Liliane começou a trabalhar desde o segundo ano de graduação com a tradução de textos, uma paixão que nunca mais largou. “Fui picada pelo bichinho da tradução e me apaixonei por esse ofício. Nunca mais parei.” Durante o curso, chegou a traduzir três livros, entre eles “La muette”, da iraniana Chahdortt Djavann, com o qual foi selecionada para participar da Oficina de tradução de Francês de Paraty, em 2013.

Reviver a obra de George Sand é trazer à tona, segundo Liliane, “uma sonhadora, que achava que o amor poderia unir as pessoas de classes sociais diferentes”. Sand, no entanto, não é reconhecida na mesma proporção que alguns de seus contemporâneos, como Gustave Flaubert, porém Liliane explica que sua obra repercutiu bastante na sociedade da épóca: “Ela fez sucesso junto ao público e foi muito presente no meio intelectual francês do século XIX.”

Sobre a temática abordada na história, do jovem François, discriminado por não conhecer sua origem, Liliane reflete: “Infelizmente esse tema ainda é muito atual! O preconceito! Nossa sociedade ainda está impregnada de misoginia, racismo, homofobia, esse maldito preconceito de origem e tantos outros.”

Confira a entrevista completa:

K: Conte-nos um pouco mais de sua trajetória literária. Quais suas grandes influências de autores e autoras?

LM: Sempre fui apaixonada pela literatura como leitora. Gosto muito de Érico Veríssimo, Clarice, Pessoa, Cecília Meirelles, Jorge Amado, Machado, Hugo, entre outros, ultimamente tenho lido mais Sand e Chahdortt Djavann. Letras de música também me levaram a prestar atenção na escrita de alguma forma. Quando eu era criança gostava de pensar sobre letras de músicas como “Construção” de Chico Buarque, por exemplo, e ficava encantada ao perceber que as últimas palavras de cada verso são proparoxítonas.

K: Como surgiu a ideia de publicar a tradução de “François – O menino abandonado”? Qual foi a sua reação ao entrar em contato com a obra e a vida de George Sand?

LM: Conheci George Sand na faculdade, eu tinha que ler um capítulo de seu livro “François, le champi” no fim de semana para fazer um trabalho. Achei o livro tão apaixonante que o li inteiro. Quando terminei de ler eu já sabia que um dia iria traduzi-lo, ele precisa ser lido. A autora me chegou como uma mulher genial, politicamente ativa, que defendia publicamente tudo aquilo em que acreditava, como o direito das mulheres dirigirem a própria vida, o direito ao divórcio. Foi uma escritora sensível, otimista e muito inteligente.

K: A autora do livro, Aurore Dupin, teve de assinar suas obras como George Sand, na França do século XIX para conseguir ser publicada. O que essa história pode nos trazer de reflexão para os dias de hoje? As mulheres ainda sofrem com muitas dificuldades para serem publicadas no meio literário?

LM: As mulheres sempre tiveram que provar sua capacidade para depois poder exercer livremente suas profissões, sempre foi assim e ainda é … os movimentos feministas são fundamentais na luta contra essa discrepância na sociedade. Certamente na época em que George Sand viveu não era diferente. As mulheres não podiam nem mesmo fumar ou beber em público, imagine escrever e publicar! Essa situação não é exclusiva do meio literário, a luta por direitos iguais abrange todos os campos profissionais e até comportamentais.

K: Como a obra de George Sand repercutiu na época em que foi escrita? E por que a autora não é tão reconhecida como alguns escritores que foram seus contemporâneos (como Balzac e Flaubert)?

Retrato de Aurore Dupin, que assinou suas obras como George Sand

LM: Eles eram amigos, né? Sabemos hoje que em alguma medida sua arte influenciou pelo menos Gustave Flaubert e Marcel Proust, e sua figura inspirou Balzac em alguns romances, há quem diga que influenciou também Tolstói de Dostoëvski.

George Sand era uma sonhadora, achava que o amor poderia unir as pessoas de classes sociais diferentes. Ela fez sucesso junto ao público e foi muito presente no meio intelectual francês do século XIX. Talvez o pouco reconhecimento tenha a ver com o tom dos seus livros, geralmente otimistas, com final feliz, mas também sabemos que várias mulheres que eram artistas e companheiras de artistas acabavam ficando um pouco à sombra de seus maridos ou amantes, estes sim, famosos.

K: No livro, François é um jovem que foi abandonado e, após ser adotado, tem de conviver com o preconceito pela incerteza de sua origem. Como você identifica a importância da história retratada no livro para os dias de hoje?

LM: Infelizmente esse tema ainda é muito atual! O preconceito! Dizem que o pior dos pecados capitais é a soberba, que nada mais é do que a arrogância de se achar melhor do que os outros… conheço tantas pessoas que vivem falando em Deus, mas julgam e condenam aqueles que são diferentes de si. Religiões inteiras pregam preconceitos!  Nossa sociedade ainda está impregnada de misoginia, racismo, homofobia, esse maldito preconceito de origem e tantos outros. Mas muita gente finge que racismo não existe, que o machismo já era…

K: Como você analisa o cenário de traduções na literatura brasileira atualmente?

LM: É um cenário complexo, que envolve o leitor, a arte literária, a editoração, o mercado… Penso que para responder essa pergunta com responsabilidade seria necessário fazer algum estudo do momento atual. Dificilmente as editoras arriscam a publicação de nomes menos conhecidos, é um meio fechado. Mas os tradutores não param de trabalhar, a tradução de autores brasileiros para outros idiomas, bem como a tradução de estrangeiros para o português, é constante, é intensa, há um movimento da arte literária que não para.