Marcos Vieira fala sobre seu livro ‘Manual de Sobrevivência no Metrô’, de uma estação à outra

06/02/2018

Ao lermos Manual de Sobrevivência no Metrô, estamos diante de uma primeira provocação: a palavra manual nos remete a algo técnico, de base científica. Aqui, o manual possui outros ares semânticos: é um mergulho profundo no microcotidiano das relações humanas de base pós-moderna. O livro, em estilo rápido, fluido, em que a simplicidade ajeita-se como uma qualidade de estilo entremeando a crônica e o jornalismo. Indo além, nesse dinamismo narrativo encontramos reflexões de base metafísica, ou seja, o intercâmbio de ideias entre as personagens proporcionam momentos caros de reflexão existencial.

Os capítulos aqui são divididos espacialmente, tomando como referência as próprias estações de Metrô. O curioso se faz, pois apesar dos capítulos não possuírem um núcleo narrativo linear, a história se condensa pelo fio condutor do espaço da locomotiva da cidade. Adentre-se nessa sobrevivência narrativa e boa viagem!

Edner Morelli

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Nascido, criado e radicado na periferia de São Paulo, Marcos Vieira é, assim como todo grande cronista das idiossincrasias cotidianas, um exímio observador dos costumes da sua gente. Nascido em março de 85, iniciou a sua caminhada às letras ainda garoto, atuando em projetos sociais. Norteado por professores, mergulhou na literatura tornando-se íntimo dos livros. Formou-se Cinema e Letras, e sagrou-se literato pela prática do ofício de escritor por meio de seu blog.

Em Manual de sobrevivência no Metrô, o autor reúne as experiências desse laboratório e apresenta ao público a conclusão de um minucioso trabalho de observação das peculiaridades e trejeitos desta gente que chacoalha pelas linhas de metal.

Yuri Dinalli

Confira a entrevista do autor concedida à Editora Kazuá:

KAZUÁ: Você, Marcos, é professor formado em Letras e também flerta com o cinema através do ofício de roteirista. Como se deram esses encontros?

MARCOS VIEIRA: O encontro se de maneira deliciosamente ocasional. Descobri que gostava de escrever com 18 anos, quando participava de um programa social da prefeitura, uma espécie de jornal. Dali surgiu a oportunidade de ingressar em uma ONG de mídia, e foi o meu texto que abriu essa porta. Quando me deparei com a necessidade produzir coisas minhas, vi a lacuna enorme que havia na minha formação. Graças às indicações iniciais de meu professor, li boa parte da biblioteca dali. O curso de roteiro foi fluido. Dele decorreram o trabalho na área e o curso de Cinema. A faculdade de letras só veio bem depois – quando decidi refinar minha relação com a escrita. Na faculdade percebi a grandiosidade e a possibilidade de facilitar o acesso entre obra e jovem/ mundo e jovem – como aconteceu comigo. Assim, surgiu a figura do professor. O divertido é usar essa amálgama toda para escrever e lecionar.

K: Você acredita que o fato de estar inserido no universo cinematográfico torna a sua narrativa visual, tal qual um roteiro?

M.V.: Vejo a área do roteiro como uma ferramenta interessantíssima na narrativa. O aspecto visual é bastante relevante. Mas gosto também da visão macro do enredo que o roteiro também te estimula. Ademais, essa preocupação imagética ela não precisa encharcar todo o texto, mas pontuar partes do enredo. O manejo desse ritmo narrativo creio que seja a melhor herança que obtive. Gosto de pensar também nos diálogos, uma vez que diferente do teatro, o cinema procura usar como uma ferramenta distinta – fala e imagem nem sempre coadunam, pra não se tornarem redundantes como nas novelas. Assim, nas falas também percebo essa influência.

K: “Manual de sobrevivência no metrô” é uma narrativa que tem como figura central a personagem Teobaldo Silva. Com surgiu esta figura?

M.V.: Teobaldo Silva foi uma figura mais interessante que eu, uma vez que não existe e fica ao sabor da necessidade da narrativa. Propus-me a escrever cotidianamente para exercitar a escrita. Na época estava numa leitura voraz, coisa de 50 livros por ano, e sentia falta de praticar, colocar no papel um pouco das correntes literárias que estava conhecendo, plasmar e tentar encontrar o meu jeito de escrever. Assim, peguei algo extremamente cotidiano – o metrô – e resolvi me debruçar sobre a reflexão do que muitas vezes era o banal do banal. O nome do personagem veio para dar um quê de humor, uma vez que minha proposta não era algo de cunho informativo/ argumentativo. Além disso, o trocadilho do título também me era interessante para que fosse um título marcante e inesquecível. A princípio, narrei em terceira pessoa. Só no livro me veio a ideia de usar a subjetividade explícita.

K: Por que a escolha da palavra “Manual” para o título do livro? Você o entende como, de fato, uma espécie de “guia” para os viajantes?

M.V.: Manual é um título bem irônico, na verdade. A complexidade humana impede (feliz e infelizmente – acho que mais o primeiro) que existam fórmulas capazes de nos levar a um objetivo igual traçando o mesmo caminho. Não é novidade para ninguém. Todavia, a população de alimenta bastante de livros de autoajuda: manuais, de uma certa forma. O “Manual de sobrevivência no Metrô” porém, longe de oferecer pontos de direcionamento direto, está mais preocupado com a reflexão. É um pensamento meio construtivista, uma vez que cada pessoa vai precisar descobrir de maneira empírica qual foi o seu manual. Teobaldo Silva relata o seu. Nada mais atávico do que nos alimentarmos da experiência alheia para aprendermos de alguma forma – mesmo que seja o NÃO devemos fazer.

K: O transporte público é, também, um espaço que convida à reflexão, de acordo com a rotina das viagens. O livro nasce da necessidade de suprir o ócio que se instala entre uma estação e outra? Como foi esse processo criativo?

M.V.: O processo de criação da história em si parece a composição de papel machê: você vai juntando pedaços e há uma certa desreferencialização uma especificidade. Às vezes, ainda insistindo na metáfora, conseguimos enxergar uma letrinha aqui ou lá. Na leitura do Manual vê-se muito disso: a massa composta pela rotina genérica. Eu me sentia anestesiado naquele ambiente e escrever me deu choque: eu estava me tornando aquilo que Nelson Rodrigues dizia ser alguém sem rosto. Falar do metrô foi a forma que eu encontrei para me humanizar novamente. O determinismo é uma força medonha – mas o determinismo inverso é fascinante. Quando faço a assimilação dos capítulos com as estações, dá para fazer um paralelo entre o decorrer da semama e cada estação como um dia – uma vez que a efeméride torna uniforme a passagem de tempo, se usarmos Thomas Mann como referência. Parece que entramos no metrô segunda e só descemos sexta, porque o trabalho não colabora muito como válvula de escape.

K: Ainda sobre a personagem central, Teobaldo Silva: Seria esta a personificação dos trejeitos e linguagens presentes no cotidiano das pessoas que se utilizam deste meio de transporte. Ou seja, esta figura é, ao final, a síntese de toda uma classe?

M.V.: Sabe, não fui tão exigente na composição do Teobaldo. Sou fascinado por Ernerst Hemingway. Se tem uma coisa que aprendi com ele foi ser sincero na escrita. Dessa maneira, mais do que tentar açambarcar as características gerais nele, busquei fazer alguém o mais honesto possível, contando a sua história de maneira simples. Talvez a polifonia presente em algumas partes possa de uma certa forma dar vazão a essa voz mais plural. Além do mais, há complexidade demais no metrô e no ser periférico para possibilitar uma síntese. A ideia é mais estimular a cumplicidade.

K: O livro traz em sua proposta um certo teor humorístico que por hora beira a tragicomédia. Como você enxerga a relação destes dois sentimentos (comicidade e tragédia) com o cotidiano dos usuários do metrô?

M.V.: Nos ensinam desde pequenos que sempre há um lado positivo nas coisas. Na prática, isso se torna mais uma obrigação do que uma busca. Quem não enxerga o lado bom das coisas é mal visto e malquisto. Vejo que o humor acabou se tornando uma dessas perspectivas menos assustadoras daquilo que nos aflige cotidianamente. O grande problema, para mim, é quando essa graça se torna panaceia – um anestésico diário responsável por fazer com que as pessoas não busquem uma melhora significativa para as próprias vidas. Elas riem do problema, do outro, de si mesmas… Me lembra muito as ficções científicas Fahrenheit 451, Admirável Mundo Novo, 1984. O trágico e o cômico andam juntos para mim. Mas vejo que muitas vezes em direção contrária – o primeiro nos leva ao autoquestionamento, ao trabalho e a consciência do que não nos apraz; o segundo, ao entorpecimento do caminho, de volta ao que deixamos em casa e nos agrada, mas está distante de nós, como um condenado à morte que se delicia com uma memória. Óbvio que não é todo humor que faz isso, estou falando sobre o riso vazio da hiena, mas para ele ser significativo, é preciso perceber a seriedade que existe na piada bem construída e na sua veia crítica.

K: Por fim, você anda promovendo muitos lançamentos pela cidade e levando a obra para vários espaços. Acredita que a mensagem do livro ajuda a ocupar toda essa variedade de lugares?

M.V.: Eu acredito que é algo interessante até para quem não usa metrô. É tudo um signo. Como não acredito em manuais, como já disse, a brincadeira sobre o sentido da vida que todos nós refletimos durante a nossa existência está ali presente. Portanto, acredito que o Manual possa ajudar sim na reflexão de qualquer pessoa e de qualquer parte, uma vez que é arte e não um livro técnico. Claro, que há bastante coisa que quem usa metrô vai fazer associações. Mas veja: o fato de eu não pertencer a uma tribo ou nunca ter ido à África não me impede de chorar e me envolver com a Literatura Africana, por exemplo. Espero realmente que o nome Manual de sobrevivência no Metrô não seja um delimitador de público, mas um provocar de estranhamento diante de uma realidade sobre a qual não pousamos os olhos muitas vezes – e não falo de transporte público, afinal DESTINO é uma palavra bastante sugestiva para significar somente uma estação…