Mariana Lancellotti fala sobre o livro ‘Lorena’: ‘A sexualidade feminina ainda incomoda muita gente’

21/08/2017

“A Lorena é uma mulher que precisa dizer o que pensa para se sentir bem. Ela sempre sabe o que pensa, mas nem sempre sabe o que sente. Ela vive a vida buscando experiências novas, buscando expressar quem ela é”. Assim a autora Mariana Lancellotti define a protagonista que dá nome a seu livro de estreia, “Lorena – sem filtro nem ponto final”.

A obra conta a história de uma fotógrafa com aspirações literárias. Mais do que sua ocupação, a autora buscou passar aos leitores e leitoras o que sente, como se relaciona com a própria sexualidade, a personagem principal. Narrado em primeira pessoa, Mariana conta que “o livro é o que classificam como auto-ficção, porque a história da Lorena tem congruências com a minha vida, embora não seja a minha história ou simplesmente uma autobiografia em formato ficcional”.

Para além da necessidade de expressar, a partir da literatura, questões de sua vida pessoal, Mariana afirma o devir político de sua obra que, como outros livros que admira “vão além da vontade do artista em se expressar ou explorar uma estética pela estética”, e explica: “No caso da Lorena queria registrar as referências musicais da minha geração e do meu grupo de amigos mas, principalmente, queria expor o lado feminino de como se vive a sexualidade e a afetividade.”

A vida da personagem se desenrola nas páginas dessa obra a partir das relações sexuais de Lorena, em capítulos que se relacionam entre si, porém, não oferecem uma orem cronológica linear, tornando-se contos independentes. “Dividi em contos, onde eu consegui domar melhor o clímax das histórias. Eu os escrevi em ordem totalmente aleatória, como vinham na minha inspiração”, nos explica Mariana sobre a escolha de organização do livro.

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A autora trabalha como psicanalista e buscou, em sua obra, apresentar uma visão amparada nos conceitos que estuda, especialmente nas ideias de Freud (1856-1939). “A psicanálise entrou na minha vida e mudou muito minha forma de ver o mundo, e quando decidi escrever o livro estava muito apaixonada pela teoria Freudiana.”

Essa inspiração deu origem a um livro que é muito mais do que um relato das experiências sexuais de Lorena: “Quando as pessoas me perguntam informalmente, eu digo que ‘Lorena – sem filtro nem ponto final’ é um livro de contos sobre relacionamentos que não deram certo, mas intimamente quis escrever uma ficção que falasse sobre a sexualidade feminina e suas vicissitudes”, explica Mariana.

Com ilustrações da cantora Tulipa Ruiz e Mari Casalecchi, as figuram complementam a narrativa do livro. Lançado em 2015, Mariana conta como foi a repercussão entre as leitoras: “As leitoras me dizem que se emocionam quando se identificam com a personagem. Acho normal, porque é um livro contemporâneo retratando valores de uma geração contemporânea e a identificação sempre causa um certo alívio, de não ser alguém estranho no mundo.”


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KAZUÁ: Para começar, gostaria que você falasse um pouco sobre sua trajetória até aqui. De onde surgiu o interesse pela Literatura?

MARIANA LANCELLOTTI: Minha mãe é bibliotecária, então desde criança ela me estimulou à leitura e a ter um grande respeito pelos livros. Demorei a ser uma leitora de ficção, na adolescência lia mais os cronistas de jornal e os livros indicados pela escola. Quando entrei na faculdade comecei a buscar mais, ler clássicos, ler autores premiados. Queria saber o que era considerado “boa” literatura. Depois tive uma fase de ler best-sellers, livros com prosas fáceis, que fossem menos cabeçudos. Acho legal ter um repertório equilibrado, entre o pop e o erudito.

K: Na introdução do livro você fala que buscou retratar “uma histérica (no conceito freudiano) contemporânea” para criar a personagem que dá nome ao livro. Quem é Lorena?

ML: A Lorena é uma mulher que precisa dizer o que pensa para se sentir bem. Ela sempre sabe o que pensa, mas nem sempre sabe o que sente. Ela vive a vida buscando experiências novas, buscando expressar quem ela é. A histeria, no conceito freudiano, tem muitas características, mas para facilitar o entendimento de um leigo, sua libido (energia psíquica) tem facilidade de escolher e amar objetos externos, mas menos facilidade de fazer o mesmo consigo mesma. Não tem nada a ver com dar “pitis” ou ser emocionalmente desequilibrada, como muitos pensam.

K: Você trabalha também com a psicanálise. Como a experiência na área da psicologia te influenciou para desenvolver a personagem e construir a história do livro?

ML: A psicanálise não é uma área da saúde, assim ela nem é uma ciência par da psicologia. Embora o objeto de estudo seja o mesmo, a pessoa, a visão sobre o objeto é diferente. A psicanálise entrou na minha vida e mudou muito minha forma de ver o mundo, e quando decidi escrever o livro estava muito apaixonada pela teoria Freudiana. Quando as pessoas me perguntam informalmente, eu digo que “Lorena – sem filtro nem ponto final” é um livro de contos sobre relacionamentos que não deram certo, mas intimamente quis escrever uma ficção que falasse sobre a sexualidade feminina e suas vicissitudes.

K: Ainda sobre a história, você resolveu retratar uma jovem de classe média da zona oeste paulistana e inicia o livro na FLIP, expondo os machismos dentro do meio literário. Como você enxerga a opressão de gênero dentro desse contexto (“meio intelectual, meio de esquerda”, como parafraseou de Antônio Prata no livro)?

ML: Acho que ainda estamos em uma sociedade machista, onde os assuntos ditos femininos são vistos como fúteis e românticos. Estamos mudando isso, já é sabido que o universo da mulher é muito mais rico do que isso. Mesmo assim, um livro com uma mulher protagonista, falando sobre seus amores, é taxado como fútil e romântico, mesmo antes do leitor entrar em contato com a narrativa. A Lorena fala de política, de empoderamento, de não saber seu lugar no mundo, assuntos universais. A questão dela vir da Zona Oeste foi uma observação antropológica de SP, onde as pessoas que estudam e vivem nessa área da cidade acabam tendo mais exposição a uma vida cultural e boêmia rica em alternativas.

K: Você escolheu dividir o livro em capítulos independentes mas que conversam entre si. Por que a escolha pelos recortes de situações distintas e não-lineares para retratar a história de uma mesma personagem?

ML: Na verdade isso foi bem incidental. Eu queria escrever um romance mas os capítulos foram separados em fases pela experiência da vida sexual dela (do primeiro beijo ao um divórcio), mas tinham gaps de tempo estranhos para o fluxo de um romance. Aí, dividi em contos, onde eu consegui domar melhor o clímax das histórias. Eu os escrevi em ordem totalmente aleatória, como vinham na minha inspiração. O conto no qual ela participa de uma suruba (Sem filtro nem ponto final), por exemplo, foi o último a ser escrito, mas é o terceiro do livro. Colocar a cronologia descendente foi uma sugestão do Marcelino Freire em uma oficina de escrita criativa e achei uma boa solução, pois o leitor tem mais facilidade de se interessar pela personagem na fase adulta que na infância.

K: O livro possui belas ilustrações de Mari Casalecchi e Tulipa Ruiz. Qual a importância dessas figuras para sua obra? Como estabeleceu o contato com as ilustradoras e o quanto elas acompanharam o seu processo de produção?

ML: Eu particularmente gosto de todos os tipos de arte, por isso coloco muitas referências musicais na história, por exemplo. Então acho que as ilustrações entraram para dar mais beleza e riqueza à experiência do leitor. Pedi para a Tulipa fazer as ilustrações, mas ela estava lançando o terceiro disco na época e não ia ter tempo de se dedicar, e aí me autorizou a usar desenhos que ela já tinha. E sempre fui muito fã das ilustrações dela, já brinquei que ela é uma artista plástica que canta. Quando vi o traço da Mari, achei que combinava bem com o minimalismo da Tulipa, então ela fez as ilustrações dos contos por encomenda. Vejo as duas como parceiras do projeto. A prosa é minha, mas a tradução plástica da personagem é delas. É uma arte complementando outra.

K: Conte-nos um pouco mais sobre seu processo criativo. O que te inspira a escrever?

ML: Escrevo quase todos os dias, quando tenho tempo, vontade e inspiração. Me inspiram as minhas vivências e minha visão de mundo, não me sentiria legítima em criar uma ficção que não faz parte do meu universo. O livro é o que classificam como auto-ficção, porque a história da Lorena tem congruências com a minha vida, embora não seja a minha história ou simplesmente uma autobiografia em formato ficcional.  Mas a decisão de publicar vem de outro desejo. Gosto mais de expressões artísticas que tenham um propósito claro, talvez até claramente político, que vão além da vontade do artista em se expressar ou explorar uma estética pela estética. No caso da Lorena queria registrar as referências musicais da minha geração e do meu grupo de amigos mas, principalmente, queria expor o lado feminino de como se vive a sexualidade e a afetividade.

K: Lorena passa por situações que, infelizmente, são muito comuns às mulheres. Como tem sido a recepção do livro pelo público, espacialmente entre as leitoras. Alguém já veio te procurar para falar de situações similares às retratadas no livro (homens ou mulheres)?

ML: Algumas leitoras (as adolescentes, principalmente) me disseram que ficaram incomodadas com as cenas hot (assim elas as chamam). Não só como escritora, mas também como psicanalista, fiquei muito feliz com isso. As passagens hot não são gratuitas, nem têm o propósito de incomodar, mas se elas causam esse impacto é porque a sexualidade feminina ainda incomoda muita gente, até mesmo as próprias mulheres. Era isso que eu queria trazer à tona. Não é porque a Lorena tem certa liberdade sexual que ela não busca monogamia e uma parceria estável. Essas coisas convivem juntas na minha geração. As leitoras me dizem que se emocionam quando se identificam com a personagem. Acho normal, porque é um livro contemporâneo retratando valores de uma geração contemporânea e a identificação sempre causa um certo alívio, de não ser alguém estranho no mundo.

Os leitores homens gostam de abrir a caixa de segredos das mulheres, uma questão meio voyer até, mas nunca mencionaram identificação com os personagens masculinos do livro. Também não acho estranho, porque como o livro é narrado em primeira pessoa, os personagens masculinos não têm voz, nunca saberemos a versão deles sobre os fatos. Na minha cabeça eu até criei a versão deles, mas isso eu decidi não contar pros leitores…