KAZUÁ REGISTRA: Lançamento da coletânea Escangalhar no Espaço Cultural Kazuá

17/11/2017

Na última quarta-feira (15), o feriado foi agitado no Espaço Cultural Kazuá, no centro de São Paulo. O Sarau da Proclamação reuniu os autores do livro ESCANGALHAR, uma coletânea de contos curtos que encerra a primeira edição da Oficina de Contos ESCANGALHAR, ministrada pelo escritor Plínio Camillo durante os meses de agosto e setembro, na Kazuá.

A partir dos encontros, os contos de Ademar Ribeiro, Ethel Naomi, Henrique Ranieri, Maria Rita Hurpia da Rocha, Meg Mendes e Milton Silva da Rocha, foram organizados por Plínio Camillo nessa coletânea que chega às ruas com composição visual a partir das artes de Kabila Aruanda, da Usina da Alegria Planetária.

Segundo a definição de Plínio Camillo:

A coletânea de contos é um dos resultados da Oficina Escangalhar no Espaço Kazuá, que foi além da prática de corroer, desamanhar e lascar os textos e palavras, que era a sua principal intenção. Foi um espaço onde pessoas que desejavam escrever puderam conversar sobre seus escritos. Errar e rever. Corrigir e corroer. Escavar e informar. Comunicar e conhecer. Apreciar e cometer. Arrojar-se e claudicar. Os participantes vivenciaram o encantamento de ver e ouvir sinceras críticas sobre seus trabalhos, além de presenciar o outro tomando aquele texto para si. Tiveram uma convivência forte. Profícua. Emocionante. Divertida. Viva e realmente literária.

O evento contou com a presença de convidados dos autores e, durante toda a tarde, marcou com muita literatura o feriado de Proclamação da República.

O livro já está disponível para venda pela loja virtual da Kazuá! Clique aqui para garantir o seu exemplar.


CONFIRA AS FOTOS DO LANÇAMENTO:


Da esq. para direita: Henrique Ranieri, Ethel Naomi, Ademar Ribeiro, Meg Mendes, Maria Rita Hurpia da Rocha, Milton Silva da Rocha e Plínio Camillo.


Sobre os Autores:


ADEMAR RIBEIRO:

Caçula de uma prole de três. Era o mais protegido.

Cresceu em um lar cujos pais eram uma pessoa só, uma mulher.

São-paulino, assistiu àquela campanha devastadora chefiada por Telê.

Sagitariano, correu pelas ruas daquele bairro esquecido na periferia de São Paulo.

Apaixonado, lia tudo à sua volta. De panfletos inúteis a clássicos colombianos.

Criativo, já contava histórias e imaginava enredos em suas brincadeiras.

Formou-se, é fisioterapeuta, mas sonha em ser historiador.

Aventureiro, adorava subir em árvores.

Aliá, queria construir uma para si…

Só não sabia como.

Até

Que

Teve

Uma

Ideia

E plantou ela, com sua história.


 

ETHEL NAOMI:

Etelvina Kazuko Massuda, pseudônimo: Ethel Naomi com certeza foi uma andarilha do caminho de Edo, Japão do século XVI. Nesta, transita pela Avenida Paulista procurando livros para a comunidade carente e contempladora do cotidiano. Cinéfila produz imagens na escrita fora de moda, transgressora e rebelde. Consideram-na louca de pedra pelas experiências vividas e compartilhadas. Presente nos Livros-Antologias: Crônica do radialista Milton Jung, âncora da Rádio CBN: Conte sua História de São Paulo, Quatro Elementos: Água, Ar, Terra e Fogo, Livro-Livre, Gente, Curva do Rio, CTRL+Verso. Exposições: Potlatch-Trocas de Artes-Sesc Belenzinho-SP e A Grande Cidade, Microcontos, Sesc Vila Mariana.

 


HENRIQUE RANIERI:

Tem uns sete anos que tenta organizar ideias em narrativas, sete anos de relacionamento com a Musa. No começo era bonito, ELA aparecia toda hora, mesmo sem a evocação, enchia o Word 2010 num instante, os dedos do Henrique tentando digitar tão depressa quanto as ideias que lhe eram sopradas na orelha. Com Homero deve ter sido assim, só que sem o Word 2010. Mas hoje a figura é outra. Mesmo quando o escritor aspirante grita “Ó Musa, venha cá, quero terminar essa história numa sentada só!”, ELA faz que não escuta, o abandona no vácuo dos desamparados. Agora pergunte na hora da edição. Vai, pergunte. Então: ELA salta do nada, fala muda assim, transforma assado, o dito-cujo fica num impasse, range os dentes, vara 650 ml de café, olha para os lados, vontade de ir fazer outra coisa que não escrever — escrever para quê? A Musa gosta assim, sofrimento (mesmo para bolar uma minibiografia qualquer, veja só). Mas no final há algum entendimento, o romance parece dar certo, paz… até a próxima história.


MARIA RITA HURPIA DA ROCHA: Contos curtos – organização da desordem

Sou Maria Rita … mas não sei quem estou …

Tento organizar … mas a desordem sempre impera … são muitas faces … todos os dias tem mais uma … sou rio-grandense-do-sul … mas tenho a minha infância na terra Barriga Verde … a saúde já me chamava.

Como as Vidas Secas existem para além das caatingas … passei minha adolescência no Vale do Paraíba … a saúde continuava a me chamar … mas pronunciar ácido ribonucleico e outras assemelhadas me causava calos no cérebro … parei de escutar as chamadas da saúde.

Sempre tive grandes amigos … os números … mas nunca dei bola para eles … pois, como faziam parte de mim, eu não os percebia … mas foi com eles que cheguei em um Instituto … entre os mais famosos do mundo, e lá conheci os cérebros eletrônicos … quem era mesmo a saúde?

Entre números e códigos e hormônios … aos 20 anos encontrei meu Old … este apelido só chegou duas décadas depois … e, com ele, meus quatro grandes tesouros … meus amores … que eu acho que são meus … mas são do mundo … cuidar da saúde dos pequenos é uma luta … mas todos sobreviveram e muito bem!! Os números como eternos companheiros ou parte de mim … não sei … me permitiram trabalhar em casa … eram muitos aluninhos que não se entendiam com a matemática.

Mas anos passam … o ninho fica vazio … saúde … ainda existes? Onde estás?

Os bancos da escola ressurgiram … reencontrei a saúde e hoje sou acupunturista e trabalho como tal. Mas um cérebro que nunca se contenta … quer mais … e um e-mail, com um convite para divulgar

… gerou um momento epifânico … contos curtos … o que é isso?

Estou descobrindo quem sou eu … contos curtos … com camadas que são histórias … construindo uma vida … renovada todos os dias … a cada hora … a cada minuto … a cada segundo … a cada nano

… talvez …

Como me apresentar? … se já não sou quem era no começo deste conto.


MEG MENDES:

Não é seu nome verdadeiro. Uma homenagem à sua avó materna que se foi cedo demais.

Aos 15 anos decidiu ser escritora, porém os números a fisgaram, levando-a para a Engenharia Civil. Anos depois, sua verdadeira vocação trouxe-a de volta para o caminho das Letras. Um caminho tomado de palavras, que juntas dão forma aos devaneios de sua mente.

As histórias que criava estavam apenas em sua cabeça, mas foram se acumulando e tornando sua mente uma confusão, então decidiu que já era hora de colocá-las no papel.

— Por que vocês não param de me atormentar? — Ela perguntava para seus personagens, que sempre respondiam:

— Quando nos escrever, iremos embora. É muito simples!

Sem muita escolha, transformou suas pequenas criaturas em linhas e mais linhas.


MILTON SILVA DA ROCHA:

De onde vim, para onde vou?

Meu corpo estava preso ao ambiente e minha mente em alta velocidade viajava pelas recordações da minha infância. Levitava pelos locais de comercio e até hoje as lembranças são intensas e eu tenho sessenta e sete anos. As mercearias vendiam pão sem a sofisticação atual. Seus donos, via de regra, se chamavam Manoel ou Joaquim, atendiam com um lápis na orelha e não eram japoneses. Era comum se comprar um pão e um naco de manteiga que tinham de ser transportado rapidamente para não derreter. O leite era vendido na rua em litros tirados de vasilhames transportados em carroças conduzidas por senhores que também se chamavam Manoel ou Joaquim. Não era coincidência porque a maioria destes serviços eram prestados por portugueses. Em minha região haviam muitas cidades com nomes de cidades lusitanas: Vigia, Santarém, entre outras. Eu percebi estes nomes quando em viajem por Portugal caminhando com a segurança de primeiro mundo. Deixando a segurança de lado, sem dizer que no meu tempo era melhor, observo agora o grande progresso tecnológico. As telecomunicações permitem a comunicação imediata para qualquer local do mundo a qualquer momento e eu trabalho em área afim.

Mas, sou chamado à realidade. “Pessoal, a energia voltou. O próximo no caixa!