Luciano Nunes imagina a vivência do Saci-Pererê na cidade de São Paulo em livro de estreia

20/06/2017

A primeira questão que surge à cabeça ao conhecer Luciano Nunes, autor do livro “Um Saci em Sampa”, lançado pela Editora Kazuá em 2017 é: o que faz um escritor nascido em Minas Gerais publicar sua primeira obra sobre a capital paulista? A pergunta logo encontra resposta, já que Luciano, que é professor de Língua Portuguesa, mora em São Paulo desde muito jovem, mais especificamente no bairro de Cidade Tiradentes, periferia da zona leste da cidade.

O livro traz uma das mais tradicionais personagens do folclore brasileiro, o Saci Pererê, em um território completamente distinto da mata em que vive, apresentando suas peripécias na selva de pedras de São Paulo. A temática convida o leitor a refletir sobre o que poderia ser dessa situação incomum contada pelo autor. Entre as tarefas do dia-a-dia, a história nasceu “como uma brincadeira”, como explica Luciano. “Certa vez, andava eu de Metrô quando me surge a ideia: como seria o Saci Pererê em São Paulo?”

Ilustração por Thiene Magalhães

A escolha pelo Saci também não veio à toa. Para Luciano, a figura representa “um menino negro e deficiente que supera todos os problemas para o seu objetivo”. Assim, torna-se uma reflexão sobre o negro na sociedade, além da compreensão de que “o deficiente, simbolicamente transpassado pelo Saci, também é uma pessoa potencialmente capaz de aprender e ser feliz, apesar das limitações físicas que possui”. Daí surge o aspecto transformador do livro de Luciano. “É a diferença que impulsiona o aprendizado.”

As ilustrações foram feitas pela artista Thiene Magalhães, que conta que se interessou de cara pela história quando entrou em contato com o livro. “Quando eu conheci a história do livro já fiquei imaginando como seriam as ilustrações e por onde o Saci poderia andar. Me senti a vontade para ilustrar como poderia ser a trajetória desse Saci graficamente na cidade. ”

O autor, que é um grande admirador de Machado de Assis, já participou de algumas coletâneas literárias, como Imaginarium, Nanquim, Ponto de Criação e Aquarela, pela Editora Andross e do concurso “Poesias para Maria”, da página “Os Quintais de Maria”. Conversamos com ele para saber mais sobre o livro, sua relação com a cidade e com a literatura.

Confira a entrevista completa:

Kazuá: Quando você entrou em contato com a literatura? E desde quando começou a escrever?

Luciano Nunes: Eu sempre tive um imenso apreço à escrita, tendo uma habilidade marcante desde cedo. Precisar um tempo me é indefinido… Talvez  no Ensino Fundamental, nas aulas de Língua Portuguesa me despontou a escrita, mas ela se afincou no Ensino Médio, quando as aulas de Língua Portuguesa se uniram bastante às discussões em Sociologia. Tive professores excelentes que faço questão de enaltecer; são os meus Mestres: professor Luciano Melo e professora Luciana Basílio.

O autor Luciano Nunes

K: Como é o seu processo de criação? Quanto tempo o livro levou para ser finalizado?

LN: Na escrita, eu gosto muito de seguir às inspirações que muitas vezes me são passadas. Quando me surge uma ideia, referindo-me ao processo de produção da escrita, costumo afincá-la e registrá-la o mais rápido possível. Seja por meio do papel, o que gosto bastante, seja por meio da digitação. Gosto dos textos e de amarrar a inspiração. Quanto ao processo desta obra, ela me surgiu como uma brincadeira. Eu estava em uma fase bem atarefada: fim da faculdade, produção de TCC, último bimestre na escola que eu trabalhava, enfim, uma fase muito turbulenta. Certa vez, andava eu de Metrô quando me surge a ideia: ‘como seria o Saci Pererê em São Paulo?’ Alimentei esta ideia por uma semana. Até que, como diz Gonzaguinha interpretado por Bethânia, ‘Não dá mais pra segurar!’, e eis que a escrita explodiu. Escrevi os 24 contos entre novembro de 2015 e a primeira semana de janeiro de 2016. Quase dois meses fechados. As ideias espraiavam de forma entusiasmante, haja vista que o texto me parecera uma brincadeira. Queria ver o final. Esta me foi a força propulsora.

K: A proposta do seu livro atinge um público mais jovem, pode-se dizer infanto-juvenil. Por que a escolha por esse público para contar a história?

LN: Talvez por um motivo de incentivar o jovem à leitura, à Literatura, à valorização do Brasil, do povo, da Cultura da nossa cidade e do nosso país. Há uma deficiência grande de leitura em nossa população. Se estimularmos os jovens e às crianças, embora a linguagem se dê mais à juventude, sanaremos um problema e promoveremos a reflexão ao povo, o resgate das informações e o belo que o nosso país é.

Ilustração por Thiene Magalhães

K: Como a região em que você vive, Cidade Tiradentes, influenciou no seu trabalho?

LN: Foi uma influência grande. Criei-me na Cidade Tiradentes. Aqui é o meu lugar. Ademais, várias partes dos contos se passam na Cidade Tiradentes. Faz-se necessário uma nova imagem deste bairro, uma imagem que destoe, potencialmente, das informações discursivas transpassadas pelas mídias acerca de nosso bairro.

K: Por que a escolha pelo Saci como personagem principal da história?

LN: Das personagens folclóricas, o Saci Pererê é a minha personagem favorita. Decerto que ele se faz atentado e malino, é também um menino negro e deficiente que supera todos os problemas para o seu objetivo. Não queremos incentivar ninguém à azucrinar a vida alheia, mas propomos a reflexão do negro na sociedade, do papel que exerce e do que pode se fazer realizar, além de compreender que o deficiente, simbolicamente transpassado pelo Saci, também é uma pessoa potencialmente capaz de aprender e ser feliz, apesar das limitações físicas que possui. É a diferença que impulsiona o aprendizado.

K: Em seu livro, são apresentados alguns bairros e pontos famosos da cidade de São Paulo. Como você descreveria sua relação com a cidade?

LN: Qual paulistano que não ama sua cidade? Apesar dos pesares, da cidade tresloucada, intensa, viva, cidade que não para, nós a amamos. Não há o que definir. Volto a Caetano: quando se fala em Sampa, exprime-se: “Alguma coisa acontece no meu coração!”

Ilustração por Thiene Magalhães